A"cartografia" do lixo: dados que fazem pensar
São alarmantes os dados referentes ao lixo produzido por nossas sociedades.Uma sumária de notícias, vinculadas em alguns de nossos principais diários e sites, revela, por si só, a gravidade e do crescente desperdício e do acúmulo desmesurado do "nosso lixo".
Uma equipe de cientistas e ambientalistas partem, neste final de semana, da cidade de San Francisco, nos Estados Unidos, em busca do que alguns chamam de Ilha do lixo - um redemoinho de lixo no Oceano Pacífico formado por mais de seis milhões de toneladas de plásticos.Durante a viagem, o oceanógrafo encontrou pedaços de garrafas, sacos plásticos, seringas e uma variedade enorme de outros objetos de plásticos em vários estados de conservação.[A reportagem é do sítio Portal do Meio Ambiente, 21-08-2009.]
Cientistas da Sea Education Association (SEA, na sigla em inglês) anunciaram a descoberta de uma região no Atlântico Norte onde detritos de lixo plásticos parecem se acumular. A área está sendo comparada com a já bem documentada" grande mancha de lixo no Pacífico".[A notícia é de EcoDebate, 26-02-2010.]
[A tragédia de Niterói] É resultado de absurso descuido ambiental e sanitário. Lixões a céu aberto são uma anomalia política.Simplesmente não deveriam existir mai. Lixão regulamentado por prefeituras é lixão. Igualzinho os lixões clandestinos. Eles contaminam o lençol freático, criam riscos graves à saúde pública e emitem metano, poderoso gás de efeito estufa. a única forma adequada de dispor o lixo é em aterros sanitários, depois da separação de todo material reutilizável, reciclagem e de alta toxicidade. Aterros tecnicamente benfeitos, com adequada impermeabilização e isolamento e respeito aos limites de carga e segurança.[A análise é de Sergio Abranches, do Portal Ecopolítica, e publicada pela Agência Envolverde, 11-04-2010.]
No mundo, a geração de lixo anda pela casa dos 4 milhões de toneladas diárias nas cidades, mais de um quilo por pessoa. Um enorme desperdício de materiais, num mundo carente dele. Estudo recente mostrou (New Scientist,14/80) que os EUA se desperdiça de um quarto a um terço dos alimentos produzidos e que estes, ao longo de todo o processo, consomem uns15% da energia total no país (que, 5% da população mundial, consome 20% da energia global).Cada família desperdiça US$ 600 anuais em alimentos não consumidos.[Washington Novaes, jornalista, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo,08-10-2010.]
[...] o incrível total de sacos plásticos descartados no mundo - 1 milhão por minuto, ou quase 1,5 bilhão por dia, mais de 500 bilhões por ano. Que são um dos fortes componentes do entupimento da drenagem urbana e dos rios e córregos. Além de contribuírem poderosamente para a formação de zonas mortas de até 70 mil quilômetros quadrados no fundo dos oceanos[Washington Novaes, em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 10-08-2007.]
Quem sabe que cada pessoa produz a cada ano em média dez vezes o peso de seu corpo? Quem sabe que são de pet 80,5% dos cerca de 10 bilhões de embalgens de refrigerantes(fora as de alimentos e outras) que circulam a cada ano no País e que pouco menos de 50% delas são recicladas - o restante vai para aterros, untupir as reded urbanas de drenagem ou o leito dos cursos d´água(como mostrou Elisangela Roxo, em 8/9) [Washington Novaes no artigo "Bebendo, comendo e gerando problemas" para o jornal de S. Paulo, 12-10-2007.]
Nova carga de lixo europeu desembarca em Rio Grande. Passados 14 meses após a descoberta de 740 toneladas de lixo britânico para Rio Grande, uma nova remessa irregular de resíduos europeus chegou ao porto no sul do Estado. A Receita Federal intercepto uma carga de origem checa com 22 toneladas de lixo doméstico. (A reportagem é de Guilherme Mazui e publicada pelo jornal Zero Hora, 18-08-2010)
O Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, afirmou que técnicos da pasta e do Itamaraty discutem nesta quarta-feira o envio de lixo da Inglaterra para o Brasil e que amanhã será divulgada um comunicado sobre o assunto. “O Brasil não será a lata de lixo do planeta. Vamos multar, vamos mandar de volta e cobrar responsabilidade de países que têm um discurso ambiental avançadíssimo e enviam seu lixo químico para países em desenvolvimento”, disse Minc, depois de participar de solenidade no Ministério do Meio Ambiente. (A notícia é da Agência Brasil, 22-07-2009.)
Em países ricos, 30% da comida comprada vão para o lixo. Famílias de países ricos jogam no lixo cerca de 30% dos alimentos que compram, segundo um estudo apresentado na World Water Week, a conferência mundial sobre água que foi encerrada nesta sexta-feira em Estocolmo, na Suécia. (A reportagem é do sítio BBC Brasil, 17-08-2007.)
O Brasil é o mercado emergente que gera o maior volume de lixo eletrônico por pessoa a cada ano. O alerta é da Organização das Nações Unidas (ONU), que ontem lançou seu primeiro relatório sobre o tema. O estudo advertiu que o Brasil não tem estratégia para lidar com o fenômeno e que o tema sequer é prioridade para a indústria. O país é também a nação emergente que mais toneladas de geladeiras abandonadas a cada ano por pessoas e um dos líderes em descarte de celulares, TVs e impressoras. (A reportagem é de Jamil Chade e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-02-2010.)
Segundo o Centro de Computação Eletrônica da Universidade de São Paulo (CCE-USP), foram vendidos, só em 2006, 7 milhões de computadores. Se descartados sem controle num horizonte de até dez anos, essas máquinas podem implicar numa montanha de resíduos da ordem de 70 mil toneladas. Pior: 60% do lixo coletado não têm destinação correta, ou seja, são encaminhados para os lixões, nos quais os componentes tóxicos facialmente alcançam os lençóis de água subterrânea. Se houver contaminações, os custos para a sociedade brasileira podem ser incalculáveis. (A reportagem é de Leticia Freire, do Mercado Ético, e publicada pela Agência Envolverde, 11-02-2009.)
Angra 1 e 2 geram por ano 13.775 metro cúbicos de refeitos radioativos, e essa montanha de lixo nuclear vem sendo provisoriamente estocada dentro das próprias usinas. Com a construção de Angra 3, a situação deve se agravar. Não existe, em nenhum lugar do mundo, solução definitiva para o lixo radioativo e, portanto, a definição sobre os parâmetros e a localização de depósitos para tais resíduos é complexa, demorada e de altíssimo custo político e econômico. Com Angra 3, a situação do lixo radioativo deve se agravar. Não há, em lugar nenhum do mundo, solução definitiva para tal problema. [Noticia Rebeca Lerer, jornalista e coordenadora da campanha de Energia do Greenpeace Brasil, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo.]
As grandes potências mundiais precisam encontrar meios de reduzir a quantidade de destroços em órbita, à medida que os riscos gerados por colisões no espaço aumentam, disse o chefe do Comando Estratégico dos Estados Unidos. Ele disse que as grandes potências deveriam acertar uma “operação especial responsável”, aperfeiçoar suas naves para que os resíduos deixados no espaço sejam mínimos e compartilhem dados sobre riscos. [A notícia é do portal do jornal O Estado de S. Paulo, 28-01-2010.]
Lixo e Ética do cuidado
O excessivo desperdício e a crescente acumulação do lixo que tem caracterizado nossas sociedades produtivistas e consumistas talvez sejam o sintoma mais claro de uma atitude de base que tem marcado os destinos da humanidade e, mormente, de nossa civilização ocidental. Somos vítimas da hegemonia do paradigma antropocêntrico que faz de nós, humanos, o centro da criação, dando-nos, portanto, o poder de, qual sujeitos, nos colocarmos sobre as outras criaturas, considerando-as meros objetos.A fatalidade desse nosso paradigma civilizacional moderno é justamente a de considerar o conjunto das criaturas como rigidamente separados entre sujeitos e objetos. A rigor, sujeito seria unicamente o próprio individuo considerado em si mesmo. Todos os demais seres seriam sumariamente reduzidos a coisas, meros objetos.Apenas o ser humano teria valor em si mesmo, todos os demais seres existiriam apenas por causa dele e em função dele. Este antropocentrismo moderno acaba, assim, produzindo uma situação na qual a natureza resulta sem alma e os seres humanos, meros sujeitos incopóreos.
Importados hoje, mais do que nunca, salientar a reciprocidade entre a tutela da dignidade humana e a defesa da dignidade da terra, portanto a mútua implicação entre ambas.A natureza, entendida como o conjunto de todas as criaturas, deve ser protegida pelo que ela é e não enquanto eventual potencial á disposição do ser humano. O planeta deve ser, portanto, salvaguardo em nome de uma dignidade que, para todos os efeitos, lhe é própria. O cuidado para com as criaturas todas do planeta poderá se manifestar naquela ações expressas no decálogo do "R": Reavaliar,Redistribuir,Reduzir, Reutilizar, Reciclar,Reconverter,Redefinir,Redimensionar, Remodelar, Repensar. Essas ações serão de extrema relevância também na lida com o lixo enquanto fenômeno que permeia as quatro dimensões constitutivas da ecologia integral: ambiental, social, mental e espiritual.
Artigo do Frei Sinivaldo S. Tavares
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